Fernando A Freire

Amar a dois sobre todas as coisas

Textos

ALGODÃO DOCE OU SORVETE EM CASQUINHA? (2)

 

Pardais e sabiás, em inocentes charabiás,

voaram juntos rumo a uma nuvem passageira

que o vento assoprava pertinho do céu.

Lá,

lambuzaram-se, como se mergulhassem

na suavidade de um amplo favo de mel.

Porém,

parecia ter sabores desiguais a nuvenzinha.

Para as sabiás, um gostinho de algodão doce;

para os pardais, delicioso sorvete em casquinha.

Nesse meio tempo,

enquanto os passarinhos manjavam

e se fartavam no celestial banquete

de algodão doce misturado com sorvete,

a nuvenzinha anfitriã foi se desfazendo

naquela manhã gelada, e se dissolvendo,

a cada gole dos pardais e dos sabiás.

“Aonde vais?…

- Perguntavam os visitantes -

Fica só mais um instante,

só um pouquinho mais!”.

Carinhosamente,

a nuvenzinha ficava e,

resistindo ao medo do Sol crescente,

se encolhia e cada vez mais se contraía…

E a razão?

Nem o pardal, nem o sabiá, sabiam.

Repentinamente,

uma acinzentada tempestade se agiganta

e da nuvenzinha se aproxima, cheia de apetite:

“Gostosa!”…

- Como diriam os gulosos passarinhos.

Ela, já pequeninha,

seria arrastada e brutalmente consumida.

Cautelosamente,

sabendo que teria vida curta,

a nuvenzinha se prepara para a despedida.

Ela sabia que já se dissolvia

a cada gole dos seus visitantes.

Logo,

hábil voadora, amorosa e acolhedora,

sentiu que sua forma e coloração já não se via.

Sendo assim, tudo mudou,

e, nesse ínterim,

a nuvenzinha num belo passarinho

transformou-se.

Aí,

a história do algodão doce se findou.

Sorvete em casquinha,

agora,

só se for na nuvem vizinha.

Então,

"Acabou-se o que era doce".

(fernandoafreire.net)

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(*) Charabiá = conversa fiada.

Fernando A Freire
Enviado por Fernando A Freire em 13/10/2026
Alterado em 13/10/2026


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