Fernando A Freire

Amar a dois sobre todas as coisas

Textos

A SUBSERVIÊNCIA DOS VIRA-LATAS

 

 

Era uma vez um menino de família muito rica.  Na escola, ele se destacava porque os seus professores, que eram orientados pelos diretores que, por sua vez, recebiam rígidas recomendações dos pais do menino, deveriam  mantê-lo, o quanto possível, distanciado dos meninos não ricos.

- "Cada macaco no seu galho", não!?...

- "Evitar-se-á alguma contaminação, certo!?"... 

- "Fortunados e infortunados são como água e óleo, não se devem misturar!

 

- "Por que água e vinho?"... Tarefa difícil para aquela professorinha de língua nativa que, numa de suas aulas, objetivando uma simples verificação gramatical, sorteara alguns temas entre seus alunos (todos adolescentes).  Descreveriam, em linguagem precisa e ilustrativa, o seu entendimento acerca da questão com que foram contemplados.

Coube ao menino rico detalhar e dar significação ao seguinte tema, quiçá estranho para ele:  "Uma família pobre". 

 

O Little Donald - assim o chamavam -, papel e lápis na mão, pareceu já ter o tema na cabeça.  Para enriquecer o seu trabalho, começou rabiscando alguns desenhos: mansão, automóvel, iate e um cãozinho, já asfixiado, sendo arrastado por uma corda no pescoço.  Em seguida, escreveu: 

 

- "Era uma vez uma família muito pobre.  Tão pobre que até o motorista do Rolls-Royce da família era pobre.  Tão pobre que até o cachorrinho da família era pobre - um vira-lata: passeia na rua sem coleira; em vez disso,tem uma corda amarrada no pescoço. E fede!  Pra mim, todo vira-lata é mal-cheiroso. Ah, o iate!...  O iate dessa família devia ser muito pobre, porque o seu comandante era tão pobre que até cheirava a vira-latas!  E, como se não bastasse tanta pobreza, não é que o piloto do jatinho da família também era pobre!?...  Tão pobre quanto o mordomo e as pobrezinhas das cozinheiras. Haja pobreza!...  Quando eu crescer, não vou querer pobres na minha casa, nem na minha cidade, nem no meu país - se eu for o dono dele"...

 

O trabalho de Little Donald mereceu nota máxima, sendo elogiado principalmente pelo corpo docente da escola. - "Genial!".  A princípio, hilariante mas, no final, a expressão de um ser iluminado e, acima de tudo, humanista.  Nem parecia coisa de menino rico.

Little Donald cresceu,sempre elogiado, sempre exaltado, sempre mimado. Carregou a genética dos pais, os hábitos comportamentais apreendidos, as manhas todas do ambiente onde viveu e, claro, as conexões afetivas sempre delimitadas pelo poder. Para os amigos, já era somente Donald, um homenzarrão. O Little foi desprezado.  Tudo o que ele quis, queria ou imaginava na vida, por mais caro e sofisticado que fosse, chegava-lhe às mãos, desde criança, às vezes até melhor que o esperado.  Assim é fácil viver.  Parecia tudo cair do céu.

Quando se viu, na verdade, senhor de si, aprendeu e passou a administrar as empresas e a fortuna bilionária da família.  Aí, fez muitos "amigos" no âmbito empresarial e financeiro. Juntando o útil ao agradável, incentivado pelos "amigos", concordou com sua filiação a um partido político.  Sessentão, decidiu concorrer a um cargo público, não para ser vereador, ou prefeito, ou deputado, ou senador...  Acostumado com grandezas foi logo alçado a Presidente da República do Paraíso do Mundo.  Como resposta aos seus fiéis correligionários políticos, o primeiro dos seus atos foi a redução dos tributos das grandes empresas em 23% (vinte e três por cento). "Uma mão lava a outra";  "Amigo é pra essas coisas, não?!"... Depois, descobriu um furo no seu barco. Estava entrando gente pobre no Paraíso do Mundo. - Absurdo! Isso é inadmissível. Vinham lá do Sul do Continente, transpunham um arriscado braço de mar e se instalavam, embora temporariamente, no país vizinho. Ao  atravessarem o rio Grande, no limite fronteiriço a Sudoeste, penetravam no seu país, o Paraíso do Mundo. Informaram-no tratar-se de pobres fugitivos de rincões dominados por ditaduras em seu redor, mas nem todos. A grande parte era de imigrantes pobres, famílias inteiras, que acreditaram na oportunidade de empregos, garantia de uma vida melhor. Era isso o que se pregava desde o pós-guerra.  Todos sonhando ficar ricos no país mais rico do mundo, ou melhor: no Paraíso do Mundo. Donald, que ainda hoje não sabe o que é pobreza, nem  por que seu país é chamado Paraíso do Mundo, desconhece essa motivação espraiada por toda a América Latina, provavelmente pelo mundo inteiro. Enquanto os imigrantes sonhavam encontrar tesouros, Donald sonhava com planos mirabolantes para deportá-los, algemados e acorrentados.  E assim o fez.

 

Na cabeça de Donald, antes não havia pobres eu seu país, tampouco ele admitiria.  Teria expulsado a todos como o faz agora, Construiu um longo e elevado muro nessa fronteira.  Resultado pífio.  O mundo exigia pontes. Talvez por isso tenha perdido a reeleição.  Desde o nascimento, sua primeira e única perda.  "Roubaram-lhe as eleições" - gritava aos quatro recantos do planeta, mas sem apresentar provas.   

Seu autoritarismo, durante o mandato presidencial, o fez cometer não poucas irregularidades, de alguma forma relevadas por conta de sua fortuna e seu prestígio entre os donos de grandes fortunas.  Dentre os 37 processos, insatisfeito com o resultado eleitoral, um o aponta como homicida. É que orientara seus adeptos a invadir a Casa onde funcionam a Câmara dos Deputados e Senado do seu país (o Capitólio), uma forma de protestar contra o resultado eleitoral, ataque que resultou em cinco mortes e inúmeros feridos.  

Mesmo processado, em 2024 candidatou-se novamente a presidente e, agraciado até pelo homem mais rico do mundo, se elegeu. A maior democracia do planeta, como é conhecida, não dispunha de leis que pudessem brecar esse seu retorno.  A partir daí - mais cometimento de irregularidades sem nada sofrer -, sentiu-se o menino rico mimado e bajulado de antigamente, agora alçado a rei ou imperador, digo melhor: um ditador.  O maior ditador do mundo (lembrando o filme e discurso de Charles Chaplin), que desrespeita os votos que o elegeram "Presidente" de uma democracia apelidada de plena.

Hoje, mais fortalecido do que nunca, o menino mimado, Donald:

- expulsa os imigrantes do seu país, algemados e acorrentados, desclassificando-os como ladrões, assassinos ou terroristas;

- empobrece todos os países do mundo, impondo-lhes elevadas tarifas sobre produtos importados ou exportados;

- prevalece-se da guerra na Ucrânia, onde já foram despejados trilhões de dólares em dinheiro e armamentos de guerra, para humilhar o presidente Zelensky em recente encontro na Casa Branca, quando exigia em troca a exploração exclusiva de suas terras raras, mesmo estando o país arrasado;

- obriga a elevação do desconto de 2% para 5% do Produto Interno Bruto (PIB) de todos os países-membros da OTAN, para fazer face ao custo das armas que o seu próprio país fornece (digo: vende);  OBS.: quando a participação dos países-membros da OTAN era de 2% do PIB, a soma arrecadada cobria 21% de suas despesas com segurança;  nesse caso, os EUA que participavam, antes, com 79% (das despesas);  agora, com cada um dos 32 países-membros colaborando com 5% do seu PIB, a soma arrecadada na Europa saltou para 52,5%. E os EUA, o maior interessado em armar o mundo, que antes contribuía com 79%, participa, agora, com apenas com 47,5%.  Assim determinado, a Europa ficou mais pobre a partir de uma simples reunião em Haia, em junto/2025;

- como se não bastasse, a Unidade Europeia sofre novo desgaste financeiro com a imposição de 30% de tarifaço (reduzido depois para 15%), a partir de 01/08/2025; 

- o mundo assistiu à humildade de Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, tentando negociar redução do tarifaço que recai sobre os países-membros da Unidade Europeia (UE).  Ao lado de Trump, cadeiras distanciadas quase um metro, mais parecia estar confessando seus pecados a um presbítero. Precisou deslocar-se da Alemanha até a Escócia, onde o imperador, que para lá se deslocou apenas para jogar golf, impôs a sua presença;  a metáfora é um retrato do que ocorre no mundo unilateral de hoje: cada país, qual uma bola de golfe, leva uma tacada e vai deslizando num suave despenhadeiro (gramado e bem cuidado) até sofrer a tacada final dada por Donald Trump e que o leva ao buraco (chamado Putting Green).  Diga-se de passagem: Putin até agora não tem nada a ver com essa história!  

- Por semelhante humilhação passa também o nosso país; o imperador nos vê como aquele cachorrinho sem raça do seu desenho, com uma corda no  pescoço;  impõe-nos tarifas altas e depois, ao ver que o seu país é que sairia perdendo, diz que é de brincadeira;  ainda restam alguns itens, tipo café, carne, manga, assaí..., cuja tarifa baixará provavelmente depois que nos curvarmos aos seus pés;  alguém tem que se humilhar a ele para rogar essa redução;  mas, nessa história inventada, está em jogo, e o que mais lhe importa, é o mando autoritário dirigido às nossas instituições democráticas. Para ele é preciso que nossas instituições democráticas (Executivo, Legislativo e Judiciário) não se respeitem entre si.  Ele pede para interferirem contra atos democraticamente decididos pelo Supremo Tribunal Federal. "Decisões ali tomadas precisam ser anuladas". Trata-nos, dessa forma, como "vira-latas" e ainda quer que interfiramos contra a soberania do nosso país.  Além de tudo, rebusca uma lei do século atrasado para punir um magistrado do nosso STF, só porque se aproxima a data em que será decidida a irreversível prisão de um seu "amigo", aquele que lhe passou de mão beijada o usufruto permanente do Centro Espacial (Brasileiro) de Alcântara.  Mui amigo do Brasil, hein!!...  "Brasil acima de tudo", como, senhor vendilhão da pátria?!...

- A Lei Magnitsky é a mesma que deveria ter punido o torturador Brilhante Ustra, ou os que ainda o reverenciam;  é a mesma que deveria ter punido um genocida, cuja inabilidade ou descaso como presidente do nosso país, dizimou mais de 700 mil vítimas do COVID-19 durante a pandemia. É uma Lei destinada até agora aos condenados, nunca aos magistrados que os julgam. Netanyahu está sorrindo. Pior: tem falsos patriotas aplaudindo! 

Vingança contra a nossa democracia e a nossa soberania, NÃO!

Subserviência a um imperador que nos trata de vira-latas, NÃO e NÃO!

E, afinal, os verdadeiros vira-latas, quem são?!?!?!... 

Fernando A Freire
Enviado por Fernando A Freire em 01/08/2025
Alterado em 01/08/2025


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